O "boom" das marcas chinesas e o impacto na construção de concessionárias no Brasil
- THIAGO REPOSSI
- 30 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Thiago Repossi
CEO e fundador da Loc27
MBA em gerenciamento de obras
O mercado automotivo brasileiro viveu, ao longo de 2024 e 2025, um dos momentos mais movimentados da última década. Depois de oscilar fortemente durante a pandemia, o setor voltou a crescer, impulsionado pela retomada da economia, pela entrada de novas montadoras, especialmente chinesas, e pela popularização acelerada dos veículos elétricos. Consequentemente há um aumento da demanda por construção de novas concessionárias e reformas estruturais em lojas já existentes.


De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) houve um avanço significativo do setor automobilístico, com o maior crescimento do mercado em 17 anos e com o Brasil apresentando um crescimento superior aos 10 principais mercados do mundo. Além disso, a pesquisa indica que houve uma alta de 34,2% nas importações de veículos, puxada por veículos vindos de fora do Mercosul, sobretudo da China.
Para o mercado de concessionárias, isso significa mais marcas disputando espaço e mais lojas sendo abertas, ampliadas ou modernizadas.
Outro fator relevante é que o brasileiro, em média, compra mais carro do que o restante do mundo. Conforme a pesquisa do Índice de Mobilidade do Consumidor produzida pela Ernst & Young Global Limited (EY), o nível de intenção de compra de carros por consumidores brasileiros é de 70% comparado com os 44% da média global.
Um dos motores dessa transformação é o avanço dos veículos elétricos. Entre 2023 e 2025, a venda de elétricos e híbridos dobrou em vários períodos analisados e, ainda de acordo com a EY, fatores como a alta no preço dos combustíveis e preocupações ambientais influenciaram um aumento de 57% do interesse em veículos elétricos.
Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), somente no primeiro quadrimestre de 2025 foram vendidos 27.442 veículos híbridos plug-in (PHEV), representando cerca de 50% das vendas de elétricos no período. A participação total desse tipo de veículo no mercado já fica entre 7% e 10%, dependendo do mês e da categoria, e continua subindo.
Esse cenário pressiona diretamente as concessionárias tradicionais. Showrooms e oficinas projetados exclusivamente para veículos a combustão não atendem às exigências técnicas dos modelos elétricos, que demandam uma infraestrutura com maior potência para recargas, subestações e transformadores dedicados, além de um sistema de segurança ainda mais robusto para proteção contra incêndios e curtos-circuitos.
Esse processo gera um efeito de corrida por obras modernas e adaptadas ao novo padrão global do varejo automotivo.
Para o setor de construção civil, é um cenário muito atrativo: um ciclo simultâneo de expansão de mercado e uma renovação tecnológica, criando demanda constante por obras comerciais especializadas.
Outro dado importante é que este movimento também impulsiona a demanda pelo crescimento da rede de eletropostos no Brasil. Atualmente, a rede cresce rapidamente, mas ainda não acompanha o ritmo das vendas.
De acordo com o levantamento realizado pela Tupi Mobilidade em conjunto com a ABVE, até agosto de 2025, o Brasil contava com 16.880 pontos públicos e semipúblicos de carregamento, um aumento de 14% em relação a fevereiro. Porém, os pontos permanecem com distribuição irregular, sendo que a região sudeste do país concentra quase metade deles. Além disso, os pontos de recarga rápida ainda são minoria.
Isso significa que ainda existe um espaço de atuação muito amplo em todo o país e que vem se tornando cada vez mais necessário.
Checklist: o que uma concessionária moderna precisa ter
Para quem está planejando construir ou reformar uma concessionária em 2026, estes são os pontos que mais impactam custo, prazo e operação:
Concessionária tradicional (veículos a combustão)
Entrada de energia trifásica e quadro geral de baixa tensão (QGBT), conforme as normas de instalações elétricas prediais;
Iluminação industrial e tomadas técnicas para equipamentos de oficina;
Elevadores automotivos e boxes de manutenção mecânica, padrão adotado pela indústria automotiva;
Área de troca de óleo e lubrificação, com caixas separadoras de água e óleo;
Sistema de exaustão de gases na oficina;
Piso industrial de alta resistência e pé-direito elevado;
Sistema básico de combate a incêndio (hidrantes e extintores), conforme diretrizes do Corpo de Bombeiros;
Showroom envidraçado, salas comerciais e áreas administrativas
Concessionária de veículos elétricos (além de todos os itens acima)
Subestação/cabine primária de energia e transformadores dedicados, exigidos devido à alta demanda elétrica dos carregadores, conforme diretrizes da ABNT NBR 17019;
Quadros elétricos exclusivos para os pontos de recarga;
Carregadores de veículos elétricos (AC e DC rápido), instalados em áreas técnicas dedicadas;
Botões de desligamento de emergência nos eletropostos;
Área da oficina fisicamente isolada para manutenção de sistemas de alta tensão;
Sala exclusiva para armazenamento de baterias, com ventilação forçada e piso antiestático;
Sistemas de combate a incêndio mais rigorosos em áreas com carregadores, com exigência de sprinklers em vários estados;
Esse checklist pode ser usado como referência inicial, mas cada marca possui especificações próprias.
Em suma, esse movimento abre oportunidades porque nunca houve no Brasil uma convergência tão clara entre crescimento de mercado, expansão de marcas e mudança de tecnologia.
Dessa forma, quem entrar agora com projetos certeiros, bem planejados e adaptados ao futuro elétrico garante vantagem competitiva por anos.
É exatamente neste ponto que construtoras especializadas se tornam tão necessárias, entregando obras de alto padrão para grupos automotivos que precisam de velocidade, segurança e conformidade técnica.



